Martin Scorsese sendo um dos diretores mais apaixonados pela Sétima Arte além de possuir um gigantesco conhecimento acerca da história o cinema em si, não seria de estranhar que em algum ponto de sua carreira ele gostaria de dedicar uma película inteiramente aquilo que tanto lhe deu em troca. O cinema. Scorsese dedicou sua carreira e vida à história dos filmes e preservação destes, em cada documentário onde o diretor nos guia através de um século inteiro de arte podemos ver a paixão guiar seu trabalho. É parte desse sentimento que Scorsese tenta reproduzir em Hugo Cabret. Para o público regular que frenquenta os cinemas, uma aventura mediada pelo drama de um órfão solitário e um artista esquecido pelas duras penas do tempo. Para o amante cinéfilo, uma verdadeira homenagem aos filmes, responsáveis por válvulas de escape, entretenimento, sonho, delírio, conforto e companhia, mas ao mesmo tempo cúmplice de uma realidade cruel e violenta, tão familiar à cinematografia de Scorsese.
Grandes mestres do cinema já fizeram este tipo de declaração, à memória vem o triste conto de Woody Allen com Rosa Púrpura do Cairo, a intransigência e dificuldades dos bastidores do processo de criação, 8 e 1/2 de Fellini e Uma Noite Americana de Truffaut, o projecionista da sala de exibição como fiel amigo em Cinema Paradiso, mas raras foram as vezes que o cinema funcionou, dentro da narrativa, como uma âncora, o significado de uma vida, neste caso a lembrança do pai de Hugo (Butterfield), de Georges Méliès com um passado onde sonhar era permitido.
De maneira irônica até, a escolha de Scorsese pelo 3D para realizar este filme prova-se essencial para o resultado final do apuro estético e visual. Numa época onde a utilização da tecnologia de filmagem e do CGI tem se tornado uma muleta para roteiristas/diretores incompetentes e caça níqueis em produções medíocres, aqui há a prova de que a tecnologia pode ser utilizada em benefício da narrativa, como em mais um dos característicos planos sequências introdutórios de Scorsese, a exibição panorâmica da estação de trem à medida que somos apresentados aos seus ocupantes parece muito com aquele plano do porto de Manhattan em Gangues de Nova York.
O 3D aqui adiciona camadas extras a cada plano sequência, especialmente aqueles que dizem tanto sobre o filme, os interiores da torre do relógio da estação de trens, onde a câmera segue Hugo rastejando furtivamente por túneis estreitos, engrenagens e pela escadaria que leva até seu quarto onde temos uma visão deslumbrante devido ao senso de profundidade. É essa profundidade, já usada por Spielberg em As Aventuras de Tintim, que vai ser indispensável para uma fantástica direção de arte interna, onde a composição de cena é muito mais detalhada e povoada. Dois momentos visualmente impressionantes, o primeiro quando Hugo recebe das mãos de Georges em um lenço as cinzas de seu suposto caderno de anotações queimado. Então a câmera flagra o despedaçar tanto do caderno, quanto das esperanças do menino, em um belíssimo contra plonge que em várias outras ocasiões dentro do filme maximiza determinadas sensações. E outra é o espetacular delírio de Hugo onde a câmera de Scorsese acompanha um gigantesco trem sendo arremessado violentamente contra a estação, de maneira desconcertante.
A fotografia de Robert Richardson ajuda a dar vida a uma Paris que mistura a artificialidade da tecnologia com a realidade. O resultado pode por hora parecer desconfortável, mas quando Hugo e Isabelle deixam a estação e caminham pela neve é o suficiente para cedermos a tanta beleza.
Mas o que em outros filmes realizados com esta mesma tecnologia 3D falta, em Hugo temos de sobra. Não é apenas mais um invólucro visualmente impressionante, há conteúdo e alma. Personificados tanto na visão do órfão que é até então um mero observador da vida pelas janelas embaçadas da estação quando enfim torna-se protagonista da própria história, assim como no triste destino do primeiríssimo mago dos efeitos especiais. Se a presença do elenco de apoio daqueles que permeiam o ambiente onde a narrativa toma lugar, o chefe inspetor, a florista, o casal de idosos, é questionada, podemos simplesmente dizer que cada um deles funciona como uma forma de Hugo manter-se conectado à realidade pela comédia da vida humana, assim como o Tin Man é, à sua maneira, a única lembrança de seu pai.
Infelizmente, Asa Butterfield não mantêm o nível das ótimas atuações de Ben Kingsley como o cineasta Méliès e Chloe Moretz, sempre graciosa e impulsiva.
Um grande artista quando dado as ferramentas e recursos que precisa é capaz de criar grandes obras de arte, uma verdadeira fábula sem faixa etária, onde qualquer um sem dúvida poderá apreciar.
A comparação com The Artist é inevitável, entretanto deva funcionar melhor o filme de Scorsese. Isso porque ele não se prende ao teor nostálgico de uma era ainda mais precoce aquela retratada por Hazanavicious. Embora tenha sempre em mente o dever de olhar para o passado com o devido respeito e senso de preservação, Hugo Cabret é uma ponte entre eras, dá-se o adeus honroso a tudo que serviu de influência para o cinema atual e toma mais um passo rumo à modernidade, e Scorsese conserva-se mais uma vez numa posição de destaque no cenário atual, explorando tudo que pode ser oferecido em benefício de, às vezes, contar uma bela história.












